Maurício Kenzo Website

09.Março.2006 - 16:31

Achei muito interessante esse artigo, inclusive concordo com ele. Sérgio Dávila foi um dos poucos jornalistas brasileiros que cobriram in loco a última invasão americana no Iraque. A seguir a matéria publicada na "Revista da Folha" desta semana.

O 'complexo de bunda-suja'

por Sérgio Dávila


"E aí, bunda-suja!" Quem assistiu a Madonna no Rio de Janeiro em 1993, durante a turnê "The Girlie Show", lembra do "típico palavrão brasileiro" que algum mané da comitiva local da cantora norte-americana deve ter ensinado antes de a diva entrar no palco -diz a lenda que foi um desavisado dançarino brasileiro, ou pelo menos o próprio andou espalhando essa versão.

A gafe da cantora é o equivalente musical do que fez uma década antes Ronald Reagan (1911-2004), durante jantar em sua homenagem em Brasília, em 1982. A certa altura, o então presidente norte-americano se levantou e propôs um brinde ao "povo da Bolívia". Depois se justificaria dizendo que o país era o próximo de seu périplo pela América Latina -mentira: ele só iria para Colômbia, Costa Rica e Honduras.

Os anos passam, e continuamos os bundas-sujas d’antanho -ou pelo menos mantemos o complexo. Colonizados culturais, a cada ano ou dois recebemos de braços abertos o gringo de ocasião para nos deitar regra. Os do verão 2005-2006 atendem pelos nomes de Mick Jagger e Bono (ou Bono "Vox", na versão Brasil, o único lugar do mundo em que o apelido de adolescência do vocalista do U2 ainda vigora; o que demonstra certa coerência léxico-fonética, uma vez que também somos o único povo que diz "Bãsh" ao se referir ao atual presidente dos EUA, George W. Búúúúúúúúúsh).

Em entrevista à mãe de um de seus filhos, Mick Jagger incorporou Sting na pior fase Raoni e soltou a ladainha de que o mundo tem de salvar a Amazônia, mesmo que isso desagrade os brasileiros. Durante o show do U2, os telões mostravam fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vocalista pedia a volta do Fome Zero, um letreiro exortava o fim de esquerda, direita e centro.

Vem cá, essa gente que vem dar contas e miçangas para a indiada daqui -que responde aos mimos com pulinhos, gritinhos de u-rru e mostra a luz do celular- não tem espelho em casa, não? Como o irlandês médio, esse sujeito historicamente equilibrado, reagiria se Gilberto Gil colocasse fotos da rainha Elizabeth durante um show ou pedisse o fim do ex-IRA (atual PIRA)? E por que Mick Jagger não falou das vantagens de transar com camisinha para os adolescentes que o ouviam? Ou justificou a ida do Reino Unido à falaciosa Guerra do Iraque?

O Brasil como quintal do imaginário coletivo não é tema novo. Já rendeu até um interessante documentário, "Olhar Estrangeiro", de Lúcia Murat, concluído no ano passado, que a Rede Sesc-Senac de Televisão (STV) vem exibindo durante este Carnaval. A cineasta analisa mais de duas centenas de filmes não-brasileiros que se passam aqui (supostamente ou não) ou citam o país como destino. O Brasil se sai pior do que o judeu da piada no quesito estereotipagem.

Se você já viu alguma das produções, de "Interlúdio" (1946), de Alfred Hitchcock, ao recentíssimo "Os Produtores" (2005), que por questões cronológicas não está no documentário, passando pelo inimputável "Blame It on Rio" (1984), com Michael Caine e uma jovem Demi Moore, sabe do que Lúcia Murat está falando. Quem já pisou nos EUA e dialogou com os nativos também sentiu na pele o calor da ignorância misturada com admiração pelos motivos errados.

E não é só o tal "americano médio", essa figura que hoje em dia é mais mítica que o "sasquatch", a versão americana do abominável homem das neves. Ouvi recentemente de jornalistas experientes, de grandes veículos norte-americanos, detentores de cobiçadas bolsas, absurdos como o caso do marido de uma delas que estudou espanhol cinco anos porque era apaixonado por bossa nova e queria muito conhecer o país de seus criadores.

Só descobriu a gafe quando avistou o Pão de Açúcar da janelinha do avião.

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